Para a Igreja Católica Maronita, do Líbano, o casamento de religiosos é permitido e não cria nenhum empecilho ao exercício do sacerdócio.

São Marun, monge fundador da Igreja Maronita, permitiu o casamento dos seus sacerdotes
Os padres e os bispos da Igreja Maronita, a mais numerosa entre os cristãos libaneses, dão testemunho de que a recuperação da antiga tradição dos primeiros séculos do cristianismo, quando era comum a ordenação de homens casados, é uma opção a ser adoptada para toda a Igreja Católica. Principalmente nesse momento em que os meios de comunicação de massa levantam o véu que sempre encobriu a vida sexual dos sacerdotes, divulgando inclusive escândalos de homossexualismo e pedofilia, especialmente entre religiosos dos Estados Unidos.
Na Igreja Maronita do Líbano há 1.200 sacerdotes. Metade pertence a ordens religiosas, vivem em comunidade e
fazem, livremente, a opção pelo celibato. Mas
cerca de 600 sacerdotes diocesanos são casados. Segundo o bispo El Hage, eles não criam problemas e são bons sacerdotes.
Apenas dois desistiram do sacerdócio nos últimos anos. Esta constatação, porém, não os livra do estigma e das discriminações que sofrem do poder centralizado no Vaticano por terem se recusado a adoptar o voto de castidade.
A base do celibato entre os padres católicos é a primeira carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 7, onde afirma que o celibato é a melhor forma para dedicar-se totalmente à evangeli-zação, ao serviço aos irmãos e ao louvor a Deus. Em determinados momentos da história, esta carta foi usada pela Igreja de Roma para dar sustentação ao voto de castidade obrigatório para os sacerdotes.
Entre os maronitas, porém, sustenta-se a tese de que para seguir os conselhos de São Paulo, todos os religiosos teriam que ser santos padres. Para a Igreja Maronita, os seus sacerdotes são apenas humanos.
A formação de um sacerdote maronita dura seis anos. Durante os cinco primeiros anos,
os seminaristas podem namorar para depois tomar uma decisão:
o caminho do celibato ou o matrimónio. Se escolherem o casamento deverão fazê-lo antes de iniciarem o último ano e terão uma licença de três anos para organizar a sua vida familiar. Só depois voltam ao seminário para terminar o sexto ano e receber o sacramento da ordem.
Se por acaso o candidato ao sacerdócio ficar viúvo antes de receber o sacramento ele poderá casar outra vez. Mas se enviuvar depois de já ser sacerdote não poderá se casar mais.
Esperando uma filhaConversei longamente com o diácono Raïd — filho da cozinheira Suhaila, do Orfanato de Kfarfu, das irmãs maronitas —
na companhia de sua mãe e da sua esposa Rima. Era uma tarde fresca e contemplávamos o mar Mediterrâneo do alto das montanhas do norte do Líbano.
Há 30 anos, quando Raïd tinha apenas seis anos, sua mãe começou a trabalhar no orfanato. Ela trazia o menino que gostava de participar nas missas e orações com as irmãs. Hoje, a sua esposa, Rima, espera uma menina que deverá chamar-se Aquilina, uma santa que viveu no início do século IV. Logo após o nascimento, Raïd será ordenado sacerdote.
A sua vida como professor de árabe e de catecismo em escola primária é bastante apertada. Principalmente porque decidiu tirar o diploma universitário para melhorará o seu salário. Só então, quando não precisar pagar a universidade, poderá pensar em
comprar uma casa própria. Rima era secretária em Beirute. Quando ele foi removido para Kfarfu, ela perdeu o emprego. Foi difícil encontar outro, mesmo ganhando só metade do salário. Esses são problemas que a família dos sacerdotes precisam sempre de enfrentar, embora os libaneses gostem de manter a tradição de deixar cada sacerdote no lugar onde sua família sempre viveu.
Outro problema dos jovens sacerdotes relaciona-se com as
profissões, algumas tradicio-nalmente proibidas, como as actividades comerciais. Mas Raïd gosta de fazer foto-grafia e isto é permitido. Ele já tem feito alguns trabalhos para revistas católicas. Na sua opinião,
o grande problema do clero libanês é o dinheiro.
‘‘Os que trabalham em paróquias ricas são ricos. Mas os que trabalham em paróquias pobres são muito pobres’’, conta o diácono. Isto explica porque é que os párocos recebem todo dinheiro pago por casamentos, baptizados e funerais.
O bispo El Hage tentou mexer neste costume na sua diocese e formar uma bolsa comum para depois distribuir de forma mais eqüitativa entre todos os párocos. Mas encontrou muita resistência dos padres dos bairros e vilas ricas.
‘‘O dinheiro é um Deus’’, lamenta o futuro sacerdote.
Quando conversei com o padre Alwan, secretário-geral da Conferência Episcopal, sobre os padres casados, ele até achou graça:
‘‘Este problema é vosso, do Ocidente. Nós, no Oriente, vivemos bem com os nossos padres casados.’’ Ele admitiu também que a ordenação de mulheres ainda não se constitui uma exigência no Oriente: ‘‘Ainda não chegamos a esse nível de consciência.’’
No início, podia
A história do cristianismo comprova que nos primeiros séculos não havia qualquer tipo de proibição em relação à ordenação de padres casados.
No século V, 300 bispos, entre os que participaram do Concílio de Rímini, eram casados.
As proibições só começaram nos séculos IV e V em diferentes concílios e foram sendo aceites, pouco a pouco, pelas dioceses. As motivações eram administrativas e económicas.
No Concílio de Latrão, em 1123, passou a ser uma exigência para todo o mundo latino.
No Oriente cristão, os homens casados mantiveram o direito de ser ordenados.
Todo este processo decorria paralelamente a uma postura cínica de fazer vistas grossas à vida sexual do baixo e alto clero. Hoje, cresce na Igreja Católica um movimento promovido por leigos, sacerdotes e até mesmo por bispos que defendem o do fim do celibato obrigatório para o clero latino.